sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Plutão não é um planeta

Em 1992, Jewitt & Luu identificam o primeiro Objecto Trans-Neptuniano: 1992QB1. A Cintura de Kuiper, cuja existência se especulava desde os anos 30, fora descoberta. Presentemente, já foram identificados mais de 1200 objectos na Cintura de Kuiper. Fazendo parte desta cintura, Plutão viu a sua a classificação como planeta comprometida. Após o anúncio da descoberta de Eris (2003UB313) por Brown, Trujillo & Rabinowitz, em 2005, Plutão ficou definitivamente condenado.

A questão pode parecer estranha mas não existia uma definição estrita de planeta. A distinção entre planeta e estrela é ainda assunto de bastante debate no que concerne aos planetas extra-solares. Porém, relativamente ao Sistema Solar todos acreditávamos saber quem era e quem não era planeta. Bastou uma reunião para se concluir que não o sabemos como gostaríamos.

A União Astronómica Internacional (IAU), na sua XXVI Assembleia Geral, em Praga, de 16 a 24 de Agosto de 2006, propunha-se a estabelecer uma definição de planeta. A proposta inicial, na sua essência, estabelecia apenas a massa e a esfericidade como critérios para que um objecto que não fosse um satélite fosse um planeta. De certa forma estabelecia-se que apenas o tamanho interessava: Plutão continuaria um planeta. Porém, após imenso debate foi decidido tomar também em consideração, como critério adicional, o controlo gravitacional da sua região orbital. Ou seja, era agora também necessário ter limpado a sua região orbital de outros objectos: Plutão já não seria um planeta. Foi também acordado que a definição de planeta se restringiria apenas aos objectos do Sistema Solar. Os planetas extra-solares continuam sem uma definição precisa.

No dia 24, foi aprovada a Resolução 5A [tradução do site da IAU ]:

"[...] A IAU decide, consequentemente, que “planetas” e outros corpos no nosso Sistema Solar, excepto satélites, sejam definidos em três categorias distintas da seguinte forma:

(1) Um “planeta" (ver nota 1) é um corpo celeste que (a) está em órbita em torno do Sol, (b) tem massa suficiente para que sua auto-gravidade supere as forças de corpo rígido de modo que assuma uma forma de equilíbrio hidrostático (quase esférica), e (c) limpou a vizinhança em torno de sua órbita. 

(2) “Um planeta anão” é um corpo celeste que (a) está em órbita em torno do Sol, (b) tem massa suficiente para que sua auto-gravidade supere as forças de corpo rígido de modo que assuma uma forma de equilíbrio hidrostático (quase esférica) - ver nota 2-, (c) não limpou a vizinhança em torno de sua órbita, e (d) não é um satélite.

(3) Todo os restantes objectos (ver nota 3), excepto os satélites, que orbitam o Sol serão denominados colectivamente como “pequenos corpos do Sistema Solar”.

Nota 1: Os oito “planetas” são: Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, e Neptuno.
Nota 2: Será criado um processo da IAU para colocar os objectos do limiar na categoria de planeta anão ou noutras categorias.
Nota 3: Estes incluem, actualmente, a maioria dos asteróides do Sistema Solar, a maioria dos Objectos Trans-Neptunianos (TNOs), cometas e outros pequenos corpos."

Foi também aprovada a Resolução 6A:

"[...] A IAU decide também:

Plutão é um “planeta anão” pela definição anterior e é reconhecido como o protótipo de uma nova categoria dos objectos trans-Neptunianos (ver nota 1).

Nota 1: Será criado um processo da IAU para seleccionar um nome para esta categoria."

Confesso que me agrada a despromoção de Plutão. Se Plutão tivesse sido descoberto depois de 1992 nunca teria sido classificado como planeta. Objectivamente ou não, as palavras são importantes. Porém, a nova definição possui os seus quês. Subjectivamente, não me parece muito feliz a escolha do termo "planeta anão" para algo que não é um planeta. Objectivamente, os conceitos 1b-2b e 1c-2c são mais vagos do que possa parecer e poderão surgir problemas. Não que tenha ouvido ideia melhor, note-se. O problema aqui resume-se ao Paradoxo de Sorites, atribuído a Eubulides de Mileto, que o Doutor Nuno Crato gosta de citar. Ou seja: em que ponto um monte de trigo deixa de ser um monte de trigo à medida que eu tiro grãos de trigo?

Se existirem objectos muito próximos do limiar de transição entre planeta anão e pequeno corpo, como provavelmente existirão, iremos ter situações em que um dia o objecto é um pequeno corpo por 1 km de diâmetro e no outro será um planeta anão porque foi obtida uma medição mais precisa do seu diâmetro. A questão de limpar a vizinhança será também delicada. Qual o número máximo e o tamanho mínimo de poeiras / pequenos corpos permitidos na vizinhança para que esta se considere limpa? Problemas como estes farão a delícia dos descontentes com a despromoção de Plutão.

Mas... do ponto de vista científico, será esta questão verdadeiramente importante? Em minha opinião: na prática sim, em teria não. Não: porque em teoria a Ciência não se interessará mais ou menos por Plutão, ou qualquer outro objecto, por causa de uma classificação subjectiva. Sim: porque a Ciência também vive de impactos sociais e políticos. No entanto, deste ponto de vista, penso que o saldo será positivo. Plutão pode ter perdido alguma importância aos olhos da sociedade mas, de repente, todos os outros planetas anões ganharam-na.

Notas: São imensos os artigos e opiniões sobre esta questão. Há, no entanto, dois sites de visita obrigatória: a página de David Jewitt, com particular ênfase para o artigo (em inglês) "On Pluto, perception & planetary politics", e a página de Mike Brown, um dos descontentes com a despromoção.

3 comentários:

Cláudia disse...

Muito interessante. Ficamos à espera de mais.

spiderfrommars disse...

Hum, tenho a ideia de que o Mike Brown não discorda da promoção, ao contrário do Alan Stern, por exemplo...

Nuno Peixinho disse...

A verdade é que o Mike Brown já parece ter mudado de opinião várias vezes. Parece que agora já não é um descontente. O Alan Stern, por outro lado, parece cada vez mais descontente.